quinta-feira, 10 de março de 2011

Telha de vidro

Telha de vidro - Rachel de Queiroz

Quando a moça da cidade chegou
veio morar na fazenda,
na casa velha...
Tão velha!
Quem fez aquela casa foi o bisavô...
Deram-lhe para dormir a camarinha,
uma alcova sem luzes, tão escura!
Mergulhada na tristura
de sua treva e de sua única portinha...
A moça não disse nada,
mas mandou buscar na cidade
uma telha de vidro...
Queria que ficasse iluminada
sua camarinha sem claridade...

Agora,
o quarto onde ela mora
é o quarto mais alegre da fazenda,
tão claro que, ao meio dia, aparece uma
renda de arabesco de sol nos ladrilhos
vermelhos,
que — coitados — tão velhos
só hoje é que conhecem a luz doa dia...
A luz branca e fria
também se mete às vezes pelo clarão
da telha milagrosa...
Ou alguma estrela audaciosa
careteia
no espelho onde a moça se penteia.
Que linda camarinha! Era tão feia!
— Você me disse um dia
que sua vida era toda escuridão
cinzenta,
fria,
sem um luar, sem um clarão...
Por que você na experimenta?
A moça foi tão vem sucedida...
Ponha uma telha de vidro em sua vida!




“Ninguém é de todo bom, nem de todo mal”.

Rachel de Queiroz em uma lição
Por Socorro Acioli


“Ninguém é de todo bom, nem de todo mau”, disse Rachel de Queiroz, exatamente com essas palavras, na última entrevista que me concedeu, em agosto de 2002. Foram vários depoimentos entre 1998 e 2002, colhidos para a escrita de sua biografia, publicadas em 2003. De tantas conversas, algumas frases em especial calaram em mim. Essa foi uma delas. 
Na ocasião conversávamos sobre suas personagens, tema provocado pela pergunta de uma mocinha de pouco mais de 15 anos, de caderno nas mãos, esboçando uma entrevista para um trabalho escolar.

- A Conceição do livro “O Quinze” é a senhora mesmo? – perguntou, com a inocência e alegria dos seus poucos anos.

Rachel respondeu que não, as coisas não funcionam assim na literatura. Explicou que personagens não são espelhos do autor, mas criações artísticas. São feitos de retalhos de lembranças, pedaços dali e de acolá, mas não surgem, nunca, como reflexos perfeitos e absolutos do seu criador. Contou que os bons personagens são como nós, cheios de facetas, máscaras, mistérios, bondades, medos... e conflitos.

Compreendi, então, que parte da maestria de Rachel de Queiroz como escritora estava no domínio da criação de personagens notadamente humanos, tão próximos do que somos de verdade quanto os que moram na casa ao lado, pertíssimo do nosso mundo. Amamos Maria Moura, por exemplo, porque sabemos que sua valentia é filha do medo, conhecemos o seu desejo secreto de amar, sabemos que ela não é forte por inteiro. Fazemos parte, como leitores, de suas horas de fraqueza. Perdoamos os seus erros, porque ela é como nós, dividida, sempre, entre dois caminhos possíveis, de destinos, chapinhando em terreno obscuro.

É parte da condição humana: somos construídos pela matéria da dúvida, moldados pela ambiguidade. Assim também era Rachel de Queiroz. Ateia declarada que vivia sob os olhos de santos e anjos da sua coleção de arte sacra. Apaixonada pelo Ceará, mas que deixou a terra natal na primeira oportunidade, em nome da sua profissão - que ela respeitava acima de tudo. Conversava sobre política com a mesma destreza com que preparava uma panela de doce. Gostava de luta livre e bordada. Amava o burburinho do centro do Rio de Janeiro e o silêncio do açude do sertão. Tudo cabia no mesmo coração.

Talvez a maior lição de Rachel de Queiroz – ainda não compreendida em sua totalidade, certamente – tenha sido ensinar que somos nada mais que um produto de nossas contradições. E que não é justo, muito menos possível, exigir perfeição de seres tão falíveis e, por isso mesmo, encantadores.

“Ninguém é de todo bom, nem de todo mal”, ela disse. A condição humana nos faz assim. Louvados sejam os cem anos de Rachel de Queiroz. Não a louvaríamos hoje com tanto clamor se não houvesse, na sua vida e obra, essa indecifrável e plena humanidade.
Socorro Acioli - Escritora, Doutoranda em Estudos de Literatura pela Universidade Federal Fluminense e autora do ensaio biográfico “Rachel de Queiroz” publicado pelas Edições Demócrito Rocha
socorroacioli@gmail.com



______________________________________
Amélia Prudente
Assessora Técnica da APDMCE
Tel / Fax (85) 4006.4058 / 4006.4059

Biblioteca Pública visite!

Leia um livro...
Dica: O Quinze (Rachel de Queiroz)
Onde encontrar?
Biblioteca Pública

“Vagão das Palavras
Palavras fazem do livro
um passageiro bem leve
(“mais leve que o ar)”.

Mas acredite: elas conseguem fazer um trem tão comprido... voar!

Ficha do Clube de leitura do Município de Pindoretama 2011


Ficha de cadastro de leitores do Clube de Leitura do Município – Eixo de Literatura Infantil e Formação do Leitor – PAIC


DADOS PESSOAIS
Nº DE INSCRIÇÃO__________________DATA:_____________/_______/______
NOME:______________________________________________________
DATA DE NASCIMENTO:_______________________________________
CPF________________________________     RG____________________
ENDEREÇO:_________________________________________________
CEP_________________________
CONTATO (   )_____________ RECADO____________________________
NOME: (PAI/MÃE)____________________________________________
FUNÇÃO:____________________________________________________
ENDEREÇO:_________________________________________________
ESCOLA:____________________________________________________


Comprometo – me a seguir o regulamento do Eixo, responsabilizando-me por danos ou perdas dos livros a mim emprestados.






CONTROLE DE EMPRÉSTIMO DE MODO ACUMULATIVO
TÍTULO
Autor (a)
Registro
Empréstimo
Devolução
Rubrica